


O AUTISMO E A PINTURA
Cores que libertam
Alunos autistas expõem pinturas inspiradas na obra do pintor Juan Miró
( LILIAN LARANJA | Zero Hora | 6/12/2005 )
Rafael Vinícius de Brito, 13 anos, só conseguia se interessar por jogos de futebol e surpreendeu até mesmo a mãe dele ao pintar duas telas (uma delas na foto) usando cores e formas do artista espanhol. Foto: Adriana Franciosi/ZH.
Em cada tela, uma história de desprendimento. Vencendo a fixação por repetições, nove alunos autistas descobriram o mundo vivaz de Juan Miró. E foram além: recriaram as cores e os contornos característicos das pinturas do famoso pintor catalão.
Parar e olhar. Algo simples para a maioria das pessoas. Mas um desafio para quem sofre de transtornos do desenvolvimento. Para autistas e psicóticos, sair da fixação da rotina e encontrar focos de interesse no universo exterior é um grande avanço. A visão do mundo primitivo e jovial, transmitida nas pinturas de Miró, tornou possível o que poderia parecer um milagre. Eles conseguiram, sim, parar e olhar.
Perceberam as cores que gritam, na intensidade primária do amarelo, do azul e do vermelho, além dos contornos das linhas negras, ora leves, ora firmes. E mais do que olhar, os alunos recriaram. Tudo a custo de insistência e força de vontade.
A exposição de 21 telas produzidas por nove alunos da Escola Municipal Especial Professor Luis Francisco Lucena Borges, na Câmara de Porto Alegre, é resultado de quase um ano de trabalho. Para chegar até aqui, o primeiro passo foi visitar a mostra Miró Mirabolante, que reuniu obras do pintor, na Capital, até junho.
"Miró"
Estudantes recriaram obras pesquisadas
O jogo de círculos, as linhas, as cores fortes e a sincronia das imagens despertou o interesse dos alunos. Atenta, Patrícia Zillmer, professora de Oficina de Artes Plástica da prefeitura, aprofundou o tema.
- A espontaneidade das obras motivou os alunos. Eles viram que também podiam pintar - diz.
A turma mergulhou na pintura do artista. Uma vez por semana, os alunos pesquisaram na Internet telas e esculturas. Coletaram imagens e montaram um álbum. Escolheram as preferidas para criar suas leituras. A tela que serviu de inspiração.
Mas foi preciso preparação: três meses para que a tela em branco fosse preenchida com formas, cores e criatividade. Os resultados surpreenderam até os mais próximos.